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Ritos e Mitos

A religião tradicional timorense implica um certo monoteísmo. Deus, Marômac, não é habitualmente objecto de culto, sendo este dirigido aos espíritos dos antepassados e aos lulik, objectos que por determinados motivos são considerados sagrados. Estes são guardados nas uma-lulik. Não existem templos, pois a Natureza é o templo de Marômak, o seu dono. Existem representações dos antepassados. O culto consiste em sacrifícios chamados estilos. Habitualmente têm um carácter propiciatório e terminam com um banquete em que se consome a carne dos animais mortos. Estes, nos grandes estilos são porcos e búfalos. Os ritos fúnebres são os mais espectaculares devido ao número de animais mortos, visando alimentar a alma do morto e garantir-lhe a eternidade.

Os mitos revelam antepassados, origens ou o poder sagrado de animais e pessoas. O crocodilo é talvez a figura mais importante da mitologia. É o totem, o antepassado dos habitantes de Timor. A serpente e a águia são agentes da divindade, assim como a estrela da manhã. O mundo é tripartido entre os espiritos, a divindade e os homens.

O mito do crocodilo, mito de origem, explica o surgimento da ilha e do primeiro habitante dela.

TIMOR DESPONTOU COMO AS FOLHAS DO BÉTELE, COMO O CAULE DA AREQUEIRA

Em tempos idos, lá para terras de Macaçar, um desolado crocodilo saiu do seu coito, com a mira de se alimentar.
Era Verão, pelo que. os campos feneciam de aridez.
Perto dum coilão, onde o crocodilo vivia alapardado, ficava uma pequena e humilde povoação.
Para ali se dirigiu, indo colocar-se à sombra duma grande e velha árvore, à coca dum rafeiro vadio, dum porco, ou de qualquer cabrito descuidado.
Mas, por mais que se tivesse aproximado daquela desolada povoação, nada conseguiu lograr.
Regressou, pois, amargurado e faminto.
O Sol, que a sombra da velha árvore encobria, mitigando-lhe o ardor, ia já alto.
Quando, merencório, abandonou a frescura daquele sítio, era já meio-dia; fora, a terra escaldava; para chegar à foz da ribeira, ainda tinha muito que rastejar, e as margens eram só areia escaldante.
Então, tentou mover-se apressadamente; mas, a meio caminho, não podia sofrer mais, porque a areia queimava como fogo.
Arrastava-se penosamente, atormentado pela fome e por um calor infernal, sem que o refrigério duma nuvem passageira viesse reconfortá-lo.
O infeliz crocodilo gemia e contorcia-se, sentindo que a morte se aproximava.
A sua angústia era imensa!
Um rapazito, que por acaso passava perto, a tomar o seu banho, ouviu aqueles gemidos lancinantes.
Aproximou-se, solícito, para saber donde proviriam aqueles gritos.
Ao ver o pobre animal prestes a morrer, disse para consigo:
“Coitado deste netinho crocodilo, uns minutos mais e morrerias !» 
Tentou levantá-lo e, vendo que não pesava muito, transportou-o para a água.
O crocodilo, ao sentir-se de novo dentro de água, recobrou ânimo, exultando de satisfação, sem saber como agradecer ao seu salvador.
Mas, passados os primeiros momentos, disse, movido de gra-tidão: «De hoje em diante seremos grandes amigos. Aí do crocodilo que ousar molestar-te!... Desejando passear pelas ribeiras ou pelos mares, basta que me chames e digas: amigo, lembra-te do bem que te fiz; e eu virei logo oferecer-te o meu dorso para viajares por onde te aprouver.
Se for do teu agrado, partiremos agora mesmo.»
E, confiante, lá andou o rapazito a vogar, às costas do cro-codilo, sendo já tarde quando voltou a casa.
Dali em diante, sempre que desejasse fazer-se ao mar, bastava-lhe chamar pelo amigo crocodilo, para que este aparecesse como por encanto. Foi assim durante muito tempo.
Mas um dia o crocodilo deslizou com o amigo para o alto mar, e aí o seu instinto sentiu grande tentação.
Teve ganas de tragar o seu amigo.
Mas resistiu a tão feia tentação.
Resolveu aconselhar-se francamente com os peixes do mar e, por fim, também com um cachalote:
«A uma pessoa que nos valeu, devemos fazer bem ou mal ?» Todos responderam que devemos fazer bem.
Mas esta resposta não lhe satisfez casino online os instintos, e a saliva começava a crescer-lhe na boca, embora no fundo do seu íntimo ele se esforçasse por resistir.
Consulta, então, todos os animais da terra, e todos respondem como os peixes.
Finalmente, deseja saber a opinião do macaco.
Este, pulando dum lugar pala outro e arregalando muito os olhos, indaga estupefacto:
«Que dizes tu?»
E o crocodilo repete o que dissera já aos outros animais.
Aqui o macaco pára, sentado num ramo, ao lado do crocodilo, e prega-lhe esta reprimenda mestra:
«Tu não tens vergonha?! Tu, a quem, um dia, estando prestes a morrer, à torreira do sol, este jovem desconhecido ergueu e transportou para o mar; tu queres agora, em paga, devorá-lo ?!»
E, vituperando-o ainda mais por tão feio pensamento, aviltou-o quanto pôde e afastou-se para o cume da árvore.
O crocodilo, confuso e transido de vergonha, não pensou mais em devorar o seu grande amigo.
Mas, levando-o, um dia, em direcção ao oriente, e entrando no mar de Timor, disse-lhe reconhecido:
«Meu bom amigo, o favor que me fizeste jamais o poderei pagar. Dentro em breve eu devo morrer; deves voltar para terra, tu, os teus filhos, todos os teus descendentes, e comer a minha carne em paga do bem que me fizeste.»
Baseados nesta lenda, os velhos afirmam que a ilha de Timor, principiando em Lautém e acabando em Cupão, é esguia como o corpo dum crocodilo, e a parte central assemelha-se-lhe à barriga.
Tirnor quer dizer Oriente; muitos timorenses chamam ao cro-codilo antepassado ou avô.
Se qualquer crocodilo devora alguém, é porque, dizem, este lhe fez ou disse algo de mal. Ou quando uma pessoa é apanhada por aquele, costuma gritar: Antepassado ou avô! Maldição! Maldição!
Quando entram ou passam numa ribeira onde haja crocodilos, costumam atar uma fita verde de folha de palmeira na cabeça, numa perna e, algumas vezes, também na mão e chamam para junto de si o cão. Assim, o crocodilo sabe, e não os morde.

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